Família Camponesa poderá ser expulsa no Município de Alcântaras

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Comissão Pastoral da Terra Ceará, no dia 28 de novembro de 2011, foi informada, através de agentes da CPT Sobral, do problema enfrentado por Maria de Fátima Elias do Nascimento, camponesa, viúva, residente no Sítio Fidalgo, situado no município de Alcântaras – Ceará, que a mesma poderá ser despejada com sua família, nesta quarta-feira, 30 de novembro de 2011.

Esta senhora vive há anos com sua família numa propriedade de Nelson Guimarães e Teresinha de Jesus Guimarães, os quais receberam a propriedade de herança de seus pais. Dona Fátima, reside e trabalha nesta propriedade rural desde criança, pois, seu pai era responsável pela área.

No dia 25 de novembro, sexta-feira passada, Dona Fátima recebeu um Mandato de Citação e Intimação, expedido pelo Dr. Hyldon Masters Cavalcante Costa, Juiz de Direito, que responde pela Comarca Vinculada de Alcântaras, Processo Nº 897/2011, Ação de Manutenção de Posse c/c Perdas e Danos e Pedido de Liminar, obrigando-a a desocupar o quarto onde mora no prazo de 48 horas.

Dona Fátima, além de morar na propriedade há mais de meio século, pagando pesadas rendas aos patrões, agora em idade avançada e com sérios problemas de saúde, passa por coerção e pressão para deixar o espaço onde sempre viveu, sem nenhum direito garantido e ainda obrigada a pagar indenização.

Temendo que Dona Fátima seja obrigada, por força policial a deixar sua casa, e isso venha complicar seu estado de saúde, e até mesmo por uma questão de direito, a CPT Ceará vem a público denunciar este fato e solicitar apóio para esta família camponesa, ameaçada no tocante a garantia de seus direitos.

Comissão Pastoral da Terra Ceará

Povo Kaiowá Guarani sofre novo ataque no Mato Grosso do Sul

Ataque e ameaças ocorrem um dia depois de representantes da Presidência da República terem passado pelo acampamento

Renato Santana
De Brasília

A noite desta segunda-feira (27) caiu sobre o acampamento Pyelito Kue do povo Kaiowá Guarani no breu das ameaças. Informações apuradas junto a indígenas Kaiowá Guarani dão conta de que um novo ataque ocorreu durante esta segunda-feira, contra a comunidade de acampados. Não houve vítimas.

O acampamento fica no município de Iguatemi - cerca de 200 quilômetros de Campo Grande (MS). O ataque teve como principal intenção materializar ameaça de que se os indígenas não saírem do local até a chegada da noite, serão expulsos à força.  

“Saíam do mato atirando de pouco a pouco, atirando de longe. Falavam que se não saíssemos, hoje à noite iam atacar”, diz Onides Kaiowá Guarani. O indígena informou que a ação durou cerca de duas horas e a comunidade ficou “esperando para ver o que acontecia”: a intenção era esperar o ataque para ver de que forma poderiam se defender.

Os tiros cruzavam o terreiro onde as barracas estão instaladas e os indígenas, cercados, buscavam a melhor forma de proteção.

Enquanto uma moto percorria sem parar o esquadro do acampamento, homens armados atiravam e gritavam em saídas não coordenadas do mato. “A moto sempre fica rodando, é comum”, diz Onides. “Sofremos dois ataques já. Da primeira vez queimaram todas as barracas, alimentação, roupas. Foi há cerca de três meses”, lembra.

A segunda vez foi no mês passado, quando três rapazes foram alvejados com balas de borracha. Os indígenas desejam a presença da Força Nacional no local. “Estamos com medo. Ficamos vigiando, andando de um canto para o outro. Há crianças e idosos. Caso ataquem, nos defenderemos e não vamos sair”, diz.

Onides sentencia o que mais se pode ouvir de um Kaiowá Guarani em tempos como esse, de ataques e violência: “Vamos ficar nem que seja morto (sic)”. 

Ameaças um dia depois de visita

Na tarde deste domingo (27) um grupo de lideranças Kaiowá e Guarani foi abordado e intimidado por fazendeiros e pelo presidente do Sindicato Rural de Iguatemi (MS).

As lideranças estavam acompanhados de dirigentes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), de representantes de entidades de apoio, entre as quais o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), de funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da comitiva do Governo Federal - que realizava visita oficial ao acampamento Pyelito Kue.

O secretário-executivo do Cimi, Cleber Buzatto, estava no local e assim relatou: “Nem mesmo a presença da Força Nacional de Segurança foi suficiente para intimidar os fazendeiros que, munidos de câmaras fotográficas e de uma “caneta espiã”, passaram a filmar e fotografar ostensivamente as lideranças indígenas, apoiadores e mesmo os integrantes da comitiva oficial. Além disso, o presidente do Sindicato Rural, portando-se como uma autoridade policial, passou a exigir a identificação do coordenador da comitiva, o secretário Nacional de Articulação Social, Paulo Maldos, ao que se seguiu uma intensa discussão entre ambos”.

Buzatto segue no relato:

“O presidente do sindicato realizou alguns telefonemas e, em poucos minutos, o prefeito do município de Iguatemi também chegou ao local. Ao ser questionado sobre os motivos pelos quais nenhum membro da prefeitura fora designado para acompanhar a visita à comunidade de Pyelito Kue, o prefeito respondeu que isso não havia sido possível pelo fato da visita estar sendo feita num domingo. No entanto, ao ser questionado sobre as motivações dele próprio ter atendido imediatamente ao chamado dos fazendeiros em plena tarde de domingo, o prefeito reagiu com grande agressividade verbal contra um dos apoiadores dos indígenas. O prefeito precisou ser contido pelos agentes da Força Nacional de Segurança”.

“Fica cada vez mais nítida a legitimidade e a urgência no atendimento à reivindicação feita pelos Kaiowá Guarani, em Manifesto entregue à comitiva governamental, na tarde deste domingo, em que exigem, entre outras medidas, “imediata intervenção Federal no estado do Mato Grosso do Sul” e “proteção às nossas lideranças e comunidades que estão sendo constantemente ameaçadas por grupos paramilitares existentes no Mato Grosso do Sul”, disse Buzatto antes de saber do ataque desta manhã a Pyelito Kue.

Nota de Entidades Potiguar, contra a implantação do projeto de irrigação Apodi

FOCAMPO CONTINUA O DIÁLOGO COM GOVERNO FEDERAL SOBRE O PROJETO DA “MORTE” E PROMETE MUITAS MOBILIZAÇÕES

Cresce a insatisfação dos movimentos sociais e organizações diante das mais recentes medidas da implantação do Projeto do Perímetro Irrigado com as águas da barragem de Santa Cruz a ser instalado na Chapada do Apodi executado pelo DNOCS.

Os movimentos e Organizações em reunião realizada nestes últimos dias no Fórum do Campo Potiguar – FOCAMPO reafirmou a sua posição de enfrentamento ao Projeto, conseqüente de um modelo falido de Agricultura dita “Moderna”, por isso o FOCAMPO estará atento a qualquer medida de execução do projeto.

Para os Movimentos e Organizações (FOCAMPO), a proposta atual destrói os Agroecossistemas local presentes na Chapada do Apodi, expulsa as famílias camponesas residentes há dezenas de anos, e ainda vai de encontro com o Projeto de Desenvolvimento Sustentável e Solidário que tem como principal pilar a Agricultura Familiar Camponesa.

No último sábado (26/11) em Reunião com a Secretaria Geral da Presidência da República foi reafirmado pelo representante da Presidência que não haverá assinatura da Ordem de Serviço para inicio das obras e que será interlocutor juntamente com o MDA e os Mandatos Federal de Fátima Bezerra e Estadual de Mineiro (PT) do diálogo com o Ministério da Integração Nacional (MIN), a fim de apresentar e aprofundar sobre o Projeto “Pe. Pedro Neefs”, como alternativa de desenvolvimento da região de Apodi, integrando o Vale e Chapada do Apodi.

Diante disso, as organizações do FOCAMPO indicam atividades de Luta e grandes mobilizações para o próximo período em caso do Projeto do DNOCS avançar e as negociações não derem os resultados esperados para a Agricultura Camponesa.

Entre as organizações e movimentos socais que assinam as ações atuais estão: ARTICULAÇÃO DO SEMI-ÁRIDO – ASA POTIGUAR, ASSEMBLÉIA POPULAR (RN), CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES – CUT, COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CPT, FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – FETARN, FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA AGRICULTURA FAMILIAR – FETRAF, MARCHA MUNDIAL DE MULHERES – MMM, MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST, MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO DOS SEM TERRA – MLST, REDE NACIONAL DE ADVOGADOS E ADVOGADAS POPULARES – RENAP E SINDICATO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS RURAIS DE APODI.

“A Mãe Terra está grávida. Não deixem a esperança morrer...” Ir. Vera Lúcia Palermo (SC)

Após ataque, Guarani Kaiowá decidem permanecer em terra tradicional

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Indígenas começam a retornar ao local onde ocorreu o massacre, que resultou na morte do cacique Nísio Gomes; quatro pessoas estão desaparecidas


Os indígenas Guarani Kaiowá do acampamento Tekoha Guaiviry, entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul (MS), começam a retornar ao local após o ataque que sofreram na última sexta-feira (18).

Eles seguem a orientação do cacique Nísio Gomes, 59 anos, executado com tiros de calibre 12 por cerca de 40 pistoleiros fortemente armados que invadiram o acampamento. Antes de cair inconsciente, o cacique pediu aos indígenas que não desistissem da luta que travam por seu território tradicional. “Vocês não deixem esse lugar. Cuidem com coragem dessa terra. Essa terra é nossa. Ninguém vai tirar vocês...Cuidem bem de minha neta e de todas as crianças. Essa terra deixo na tua mão. Guaiviry já é terra Indígena”, disse o cacique, segundo divulgado pelo conselho da Aty Guasu, movimento político guarani kaiowá.

Durante o ataque, os indígenas correram para a mata e chegaram aos municípios de Amambai e Ponta Porã. Alguns deles chegaram a prestar depoimento na Delegacia da Polícia Federal em Ponta Porã e disseram que, além do cacique, pelo menos outras três pessoas foram atingidas pelos pistoleiros. Sete mulheres indígenas contaram que três jovens – J.V, 14 anos, M.M, 15 anos, e J.B, 16 anos – foram baleados, sendo que um encontra-se hospitalizado e os outros dois desaparecidos.

Ainda não se tem o número exato de vítimas, justamente porque a comunidade se dispersou para a mata para se proteger do ataque. O Ministério Público Federal (MPF) recebeu informações, ainda não confirmadas, de que uma mulher e uma criança também teriam sido baleadas. Além da munição convencional, os pistoleiros usaram balas de borracha contra os indígenas, deixando muitos feridos.

De acordo com os relatos das testemunhas, o massacre tinha como alvo o cacique. Depois de morto, o corpo de Nísio Gomes foi levado pelos pistoleiros em uma das caminhonetes usadas durante o ataque – prática vista em outros massacres cometidos contra os Guarani Kaiowá no MS.

“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.

“Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.

A Polícia Federal, integrantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e do conselho Aty Guassu (Grande Assembleia Guarani), Fundação Nacional do Índio (Funai) e MPF estiveram no acampamento. Em nota, o MPF afirma que abriu investigação e na perícia constatou marcas de sangue que remontam a cena de um corpo sendo arrastado, possivelmente o do cacique Nísio Gomes.

Luta pela terra

Os indígenas ocupam desde o dia 1º deste mês a terra localizada entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá. Antes, a comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual.

A área ocupada pela comunidade está em processo de identificação desde 2008 e em fase de conclusão do relatório pela Funai. Há aínda um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF) em execução, referente ao processo de demarcação da Terra Indígena. Por conta disso, o ataque tem como principal causa o conflito pela posse do território. A região do ataque fica a meia hora da fronteira com o Paraguai.

Conforme recente publicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre a violência praticada contra os povos indígenas do MS nos últimos oito anos, no estado está concentrada a maior quantidade de acampamentos indígenas do país, 31 - há dois anos, em 2009, eram 22.

São mais de 1200 famílias vivendo em condições degradantes à beira de rodovias ou sitiadas em fazendas. Expostas a violências diversas, as comunidades veem suas crianças sofrerem com a desnutrição – os casos somam 4 mil nos últimos oito anos - e longe do território tradicional.

Atualmente, 98% da população originária do estado vivem efetivamente em menos de 75 mil hectares, ou seja, 0,2% do território estadual. Em dados comparativos, cerca de 70 mil cabeças de gado, das mais de 22,3 milhões que o estado possui, ocupam área equivalente as que estão efetivamente na posse dos indígenas hoje.

Em nota, o Cimi responsabilizou a presidenta da República, Dilma Rousseff, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o presidente da Funai, Márcio Meira e o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli pela chacina praticada contra a comunidade Guarani Kaiowá.

“O Poder Executivo tem sido omisso, negligente e subserviente. Com isso, promove e legitima as práticas de violências. O ministro da Justiça recebe latifundiários, mas não cobra Márcio Meira, presidente da Funai, sobre o andamento do processo de identificação e demarcação das terras indígenas que desde 2008 caminha de forma lenta – enquanto a morte chega cada vez mais rápida aos acampamentos indígenas. ”, afirma a nota do Cimi.
Fonte: Brasil de Fato

Bahia terá nova usina de etanol no Vale do São Francisco


Consórcio formado por três empresas investirá R$ 4 bilhões no projeto. Negociações para parceria com Petrobras estão adiantadas

Danielle Assalve, iG São Paulo | 21/11/2011

A Bahia terá uma usina de álcool em Pilão Arcado, na região do Vale do São Francisco. O projeto prevê investimentos de R$ 4 bilhões, valor 45 vezes maior que o PIB da cidade – o último relatório do IBGE indica que o total de riquezas geradas pelo município foi de R$ 89 milhões em 2008.

O protocolo para instalação da usina já foi assinado e o anúncio oficial deve ser feito nas próximas semanas. A construção da unidade será feita por um consórcio formado por três sócios, afirmou uma fonte ligada ao projeto. Participam do negócio uma empresa da Bahia, uma de São Paulo e outra do Rio de Janeiro.

A Petrobras, por meio de sua subsidiária PBio, será um parceiro estratégico na usina. A estatal deve fechar acordo para comprar toda a produção da unidade, que deve superar todo o volume produzido pelo Rio de Janeiro por ano safra. Até agora, o Estado produziu 68,7 mil metros cúbicos de álcool na safra 2011/2012, de acordo com dados do Ministério da Agricultura.

As negociações com a estatal estão em fase avançada, segundo uma pessoa próxima às empresas. Também não está descartada a participação da Petrobras como sócia no projeto, afirmou a fonte. Procurada pelo iG, a assessoria de imprensa da Petrobras informou que a empresa não vai comentar o assunto.

José Sergio Gabrielli, presidente da estatal, disse em agosto que a companhia tem planos de ampliar sua participação societária em produtoras de etanol no Brasil. Também está sendo considerada a possibilidade de construir usinas próprias.

A meta é aumentar de 5,3% para 12% a participação da Petrobras na produção nacional de etanol até 2015. Para isso, a estatal planeja investir R$ 1,9 bilhão em etanol e R$ 1,3 bilhão na área de logística para o combustível.

Os planos da Petrobras no setor de etanol ganharam força após a união da multinacional Shell e da brasileira Cosan, que anunciaram em fevereiro a criação da Raízen. A empresa tem participação de 18,4% no mercado de etanol brasileiro.

Álcool no sertão

A usina de Pilão Arcado, a cerca de 800 quilômetros de Salvador, é o primeiro projeto de álcool na região do sertão baiano. O Estado tem recebido diversos investimentos no setor nos últimos anos, mas os projetos têm se concentrado no extremo sul da Bahia.

Para analistas, fabricar etanol na região do Vale do São Francisco é bastante interessante do ponto de vista comercial. Os projetos de irrigação viabilizam a produção de cana de açúcar na região e a possibilidade de utilizar transporte fluvial reduz os custos logísticos. Além disso, a localização da usina facilitará o acesso a mercados do Norte e Nordeste do País.

Nota de repúdio da CPT Nacional, pelo assassinato Cacique Nisio

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Na manhã desta sexta-feira, 18 de novembro, ocorreu um massacre na comunidade Kaiowá Guarani do acampamento Tekoha Guaviry, município de Amambaí, no Mato Grosso do Sul, atacado por 42 pistoleiros fortemente armados. Segundo relatos de indígenas foi morto o cacique Nísio Gomes, de 59 anos, e uma mulher e uma criança. Ainda segundo os relatos foram sequestradas outras pessoas e há indígenas feridos. Os agentes do Conselho Indigenista Missionário, CIMI, foram orientados a não saírem de seus locais de trabalho, por estarem ameaçados.

Diante disto, a Coordenação Nacional da CPT, comovida profundamente, vem a público para denunciar o descaso com que são tratados os povos indígenas, as comunidades quilombolas e outras comunidades tradicionais em nosso Brasil. Por serem grupos humanos que não se submetem aos ditames das leis do mercado e da economia capitalista, são tratados como empecilhos ao “desenvolvimento e progresso” e por isso devem ser removidos a qualquer custo. Quando se levantam para exigir os direitos que a Constituição Federal lhes reconheceu são rechaçados violentamente. Aos interesses econômicos do capital são subordinados os direitos dos mais pobres. Diante desses interesses, os poderes da República se curvam e os reverenciam. Não é o que acontece com a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e de diversas outras no rio Teles Pires, e Tapajós que afetam áreas indígenas?  Não é o que acontece quando o poder judiciário emite liminares e julga procedentes situações nas quais os povos indígenas deviam antes ser ouvidos e consultados, como manda a Constituição e Convênios internacionais assinados pelo Brasil?  Não é o que acontece no Legislativo que se subordina aos ditames do agronegócio?

A triste situação em que vivem os Guarani Kaiowá vem se estendendo de longa data. Os participantes do III Congresso da CPT, realizado em Montes Claros (MG), em maio do ano passado, depois de ouvir os relatos de alguns indígenas presentes emitiram uma nota em que diziam: “A realidade das comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul é das mais cruéis e violentas de nosso país, e merece a mais forte repulsa. Foram espoliadas de suas terras e hoje vivem espremidas em minúsculas aldeias que não lhes possibilita as mais elementares condições de sobrevivência, quando não são empurradas para acampamentos às beiras das estradas, sempre perto de uma terra tradicional, sujeitas às intempéries, à fome, à sede... Um povo auto-suficiente, de uma riqueza cultural ímpar, é tratado como marginal, como escória da sociedade, mal visto pelo conjunto da sociedade sul-matogrossense. Uma realidade que clama aos céus”.

O ocorrido nesta manhã confirma e corrobora o que foi denunciado.

A Funai, que tem com missão promover e defender os direitos indígenas e lhes garantir as condições de sobrevivência tanto física, quanto cultural e espiritual, acaba tendo uma função mais que marginal, quando também não se torna subserviente aos interesses hegemônicos do capital.

A quem nega o direito dos mais fracos reafirmamos o que disse nosso III Congresso, emprestando as palavras do profeta Miquéias: “Escutem, líderes e autoridades do povo! Vocês que deviam praticar a justiça e, no entanto, odeiam o bem e amam o mal. Vocês tiram a pele do meu povo e arrancam a carne dos seus ossos. Vocês devoram o meu povo: arrancam a pele, quebram os ossos e cortam a carne em pedaços, como se faz com a carne que vai ser cozida”. (Miq 3,1-3)

Aos nossos irmãos Kaiowá Guarani, aos agentes do CIMI, a Coordenação da CPT quer manifestar sua profunda solidariedade e apoio. A causa de vocês é nossa causa, a luta de vocês é nossa luta. Com vocês compartilhamos as dores, mas, sobretudo, a esperança de que um dia a justiça vai brilhar.

Goiânia, 18 de novembro de 2011.
Coordenação Nacional da CPT

Pistoleiros invadem acampamento e assassinam cacique Guarani-Kaiowá

A luta dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul (Brasil) por paz e pelo direito de usufruir de sua terra parece estar longe de acabar. Na manhã desta sexta-feira (18), Tonico Guarani-Kaiowá, membro do Aty Guasu, denunciou, por meio do Programa Kaiowá/Guarani da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, a massacre praticado no acampamento Tekoha Guaiviry, no município de Amambaí.
Por volta das 6h30 desta sexta, 42 pistoleiros mascarados e fortemente armados invadiram o acampamento e tiraram a vida do cacique Nísio Gomes, de 67 anos, morto com vários tiros de calibre 12 nos braços, pernas, peito e cabeça. Ao se retirarem da comunidade os pistoleiros levaram consigo o corpo do cacique.
De acordo com o kaiowá Valmir, filho de Nísio, uma mulher e uma criança também foram assassinados e seus corpos levados por uma caminhonete de cor cinza. Ao tentar apurar o fato, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) recebeu informações de que, além dos assassinatos, dois jovens e uma criança haviam sido sequestrados, no entanto, ainda não há informações precisas já que a comunidade está apreensiva e abalada com o fato.
Alguns indígenas ainda permanecem no acampamento, mas a maior parte dos 60 Kaiowá Guarani da comunidade fugiu para o mato. Em sua denúncia ao programa da UCDB, Tonico afirmou que alguns pistoleiros ainda permanecem no local cercando o acampamento e impossibilitando o retorno dos que estão na mata.
Em entrevista ao Cimi, um indígena cujo nome foi mantido em sigilo por segurança, deixou claro que os Guarani-Kaiowá não vão abandonar o local. "O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha”, afirmou. Lideranças do Aty Guasu Guarani e Kaiowá estão se organizando para voltar ao local do ataque.
O Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal de Ponta Porã e a Fundação Nacional do Índio (Funai) já foram informadas sobre o caso.
Contexto 
Desde o dia 1º de novembro, os indígenas decidiram desmontar o acampamento onde viviam às margens de uma rodovia e ocupar uma parte do seu tekoha Kaiowá. O Território Indígena de ocupação tradicional da etnia está sob poder das fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde. Cerca de duas semanas depois da retomada do território a comunidade começou a ser cercada.
Os ataques e assassinatos não são fatos novos para os indígenas do Mato Grosso do Sul. No dia 13 de agosto deste ano, indígenas Guarani Kaiowá do Território Indígena Pueblito Kuê, município de Iguatemi, que ocupavam uma área entre as fazendas Maringá e Santa Rita, tiveram seu acampamento destruído, pertences queimados e sua comida roubada por homens encapuzados. Apesar disso, os indígenas não saíram do local, reivindicado como terra tradicional, e afirmam que não sairão voluntariamente.
Os Guarani Kaiowá somam hoje cerca de 45 mil indígenas e ocupam pouco mais de 40 mil hectares. De acordo com levantamento do Conselho Indigenista, 98% da população indígena do estado vive em apenas 0,2% do território do Mato Grosso do Sul. A falta de terras é apontada como o principal desencadeador de situações de violência como homicídios e ataques a comunidades, além de problemas sociais como suicídio de jovens e altos índices de mortalidade infantil.
Com informações do CIMI.
Fonte: Adital
Natasha Pitts
Jornalista da Adital

2ª ETAPA ESCOLA CAMPONESA IGUATU

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A CPT -Comissão Pastoral  da Terra Regional NE I  realizou dias: 11,12 e 13 de novembro de 2011 a 2ªETAPA DA ESCOLA CAMPONESA PARA JOVENS RURAIS. A referida escola aconteceu na comunidade de Panelas Dos Rodrigues Acopiara,teve como modulo: CONSERVAÇÃO E MANEJO DE SOLO E CONSERVAÇÃO DE CULTURAS. contamos com a participação de: 25 jovens das diversas comunidades da região. foi um momento único de aprendizado onde unimos teoria e pratica. encerramos este módulo motivados a continuarmos nesse processo de aprendizado da vivencia no campo.







1ª ETAPA DA ESCOLA CAMPONESA DIOCESE DE IGUATU

A CPT - Comissão Pastoral Da Terra do estado do Ceará realizou de: 14 a 16 de outubro de 2011
 a 1ª ETAPA DA ESCOLA CAMPONESA PARA JOVENS RURAIS. a referida escola aconteceu na comunidade de Tinguijado (Cariús) teve como disciplina para esse módulo: AGRICULTURA E AGROECOLOGIA. contamos com a participação de: 24 jovens de diversas comunidades da Região. foi uma momento de muito estudo e pratica onde aprendemos a conviver melhor com o meio ambiente.





Agricultor familiar camponês faz cultivo protegido com energia solar

segunda-feira, 14 de novembro de 2011


                                                  Foto: Antônio Carlos
Antônio Aroldo Muniz da Silva inova nos Sertões de Canindé com a produção de alimentos orgânicos

Itatira Um agricultor residente na zona rural deste Município, a 216 quilômetros de Fortaleza, localizado no semiárido Nordestino, está dando bom exemplo de como conviver com a falta de chuvas e preservar o meio ambiente. Antônio Aroldo Muniz da Silva, de 49 anos, conhecido no meio rural por "Chico Dôra", morador de Poço da Pedra, que fica a 30 quilômetros da sede do Município, ao lado da CE-366, não esconde a sua alegria de ser o único do Estado do Ceará a produzir alimentos orgânicos que estão sendo utilizados no cardápio da merenda escolar de Itatira.

Energia solar
Tudo começou depois que o Governo do Estado implantou um estufa de 98 metros quadrados para o plantio de 867 pés de tomate e 40 pés de pimentão, para uma experiência. Segundo o agricultor familiar, o projeto faz parte do Fundo de Combate a Pobreza (Fecop) e funciona por meio de energia solar.

A instalação veio da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA). De início, o projeto atenderia 25 famílias, mas ninguém acreditou no sucesso e tudo ficou nas mãos de seu Chico Dôra, como é conhecido na região, e de seu filho, Antônio Clésio Sousa da Silva, de 23 anos. Foram investidos R$ 26 mil. Além da estufa, existem na horta um tanque de 50 mil litros de água, um cacimbão no leito do Rio São Joaquim e a produção de energia solar por meio de nove placas instaladas ao lado da área de produção.

No pomar do agricultor familiar estão plantados fora da estufa tomate, pimentão, beterraba, cenoura, alface, cheiro verde, goiaba, jerimum, melancia, pimenta de cheiro, quiabo, macaxeira, batata doce, melão verde, pepino, entre outros cultivares.

Permanente
A água permanente, que corre por gravidade, ajuda na produtividade. A renda de produção familiar de Chico Dôra gira em torno de R$ 1.542,34. Além de vender para a Prefeitura, a produção também é comercializada entre as famílias que moram na área. "Minha intenção é ampliar o programa de convivência com a seca. Estou vivendo uma experiência muito boa na minha vida, com essa modalidade de trabalho produtivo sem agrotóxicos", disse o agricultor familiar.

A horta oferece uma série de vantagens. Os produtos são orgânicos, sem veneno e, ainda, ajudam a preservar o meio ambiente. Chico Dôra cria galinhas que se alimentam dos restos de verduras que passam pelo processo de qualidade.

O próximo passo, segundo ele, é a implantação de colmeias para a criação de abelhas Jandaíra, porque elas aproveitariam a flora do maracujá, da goiaba e de outros cultivos naturais para a produção do mel.

Orgânico
Para os técnicos da Ematerce de Itatira, o objetivo é favorecer o plantio orgânico, protegendo as plantas de pragas e doenças, além de incrementar a produção sem agrotóxicos. "Sempre incentivamos a agricultura familiar. Esse projeto do Governo do Estado, graças à força do nosso sertanejo, está dando certo. Está gerando emprego e renda para esse produtor que sempre acreditou na agricultura familiar", observa o prefeito da cidade Zé Dival.

Os resultados positivos que estão sendo alcançados na localidade de Poço da Pedra, com o projeto do cultivo protegido e solar, é uma iniciativa da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce), Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), em parceria com a Coordenadoria de Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Instituto Agropolos.

Comunitária
Na visão do presidente do Instituto Agropolos do Ceará, Celso Crisóstomo, o projeto de cultivo protegido e energia solar funciona com uma mão-de-obra totalmente comunitária, que busca aproveitar a energia solar para plantação de hortaliças orgânicas. "Essa produção é vendida facilmente, porque hoje a nova realidade do campo já traz a consciência de que se faz necessário o consumo de produtos sem a presença de produtos que tragam prejuízos a saúde humana", ressalta Celso Crisóstomo.

Ele defende e assegura que o cultivo protegido é uma das alternativas de maior viabilidade técnica e econômica para aumentar a produtividade de hortaliças e reduzir a aplicação de defensivos agrícolas.

"Os resultados do cultivo protegido e energia solar em Poço da Pedra em Itatira, onde apenas um agricultor cuida de tudo, mostram que é possível a instalação dessa modalidade em outras áreas dos Sertões de Canindé. Tudo passa pela geração de renda, preservação do meio ambiente e o consumo de alimentos saborosos na mesa da população", destaca Celso.

Produtos vão ganhar selo de qualidade

O Governo do Estado anunciou a criação do "Selo Agricultura 100% Familiar", certificando os produtos familiares

Canindé Para valorizar a agricultura familiar e ampliar seus espaços de comercialização e facilitar sua identificação, o presidente do Instituto Agropolos do Ceará, Celso Crisóstomo, anunciou que o governador do Estado do Ceará, Cid Gomes, lançou o "Selo Agricultura 100% Familiar".

De acordo com ele, o selo certifica que o produto foi feito por agricultores familiares do Ceará. Uma vantagem para os produtor que tem uma certificação garantida pelo Governo do Estado é para o consumidor que identifica os produtos locais com mais facilidade.

Critérios
Entretanto, para obter o selo, é necessário passar por alguns critérios. É preciso ter a declaração de aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). DAP física ou jurídica que comprova que a unidade é de produção familiar.

Outro é que os produtos devem atender às exigências de qualidade de mercado, sendo processados e beneficiados segundo normas e orientações que garantam a higiene e a padronização dos produtos.

Padronização
A embalagem também deve ser padronizada e ter um rótulo com informações básicas, identificação do produto, composição, peso líquido, validade, presença ou não de glúten, fabricante ou responsável técnico, endereço do local da produção e, ainda, contato.

Terão prioridade os agricultores familiares que têm acompanhamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) com regularidade, os que estão ligados a uma organização social (cooperativa ou associação) e, também, os que adotam técnicas que ajudam a preservar o meio ambiente.

Como obter o selo
O agricultor deve procurar uma unidade do Instituto Agropolos do Ceará, um escritório da Ematerce ou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em sua região para preencher uma ficha de cadastro. Nesta ficha, o agricultor informa se recebe Assistência Técnica e Extensão Rural de alguma dessas entidades relacionadas. Se recebe, um técnico dessa instituição que trabalha com ele já está credenciado para avaliar a concessão do selo e analisar o pedido. Se o agricultor não recebe assistência técnica, deve indicar qual a entidade que deseja que o avalie.

O técnico credenciado visita a unidade de produção do agricultor, analisa a solicitação e emite um parecer. Quando o parecer positivo é confirmado pela Comissão Gestora do selo, o agricultor recebe um certificado e os selos. O certificado terá validade por dois anos e deve ser renovado depois desse período. Caso o pedido seja negado, as razões de recusa são informadas ao agricultor. Ele pode tentar o cadastro para receber o selo novamente quando corrigir as falhas com a ajuda de entidades de assistência técnica.

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Cesta de produtos
A qualidade dos produtos orgânicos é indiscutível. Por não ser cultivado com agrotóxicos, mas de forma bem natural, é muito mais saudável para o consumidor. No entanto, os preços podem ser um pouco mais caros, mas vale à pena. Confira tabela de preços dos produtos orgânicos em Itatira: tomate: R$ 2,00 o quilo; beterraba: R$ 1,95 o quilo; Cenoura: R$ 1,75 o quilo; maracujá: R$ 0,30 a unidade; goiaba: R$ 2,90 o quilo; macaxeira: R$ 1,50 o quilo; jerimum: R$ 0,70 o quilo; Melancia: R$ 0,70 o quilo; pepino: R$ 1,00 a unidade; melão verde: R$ 2,00 o quilo; pimentão: R$ 0,30 a unidade; alface: R$ 0,80 o molho; cheiro verde: R$ 0, 30 o molhe; quiabo: R$ 2,10 o quilo. Todos os produtos são colhidos pela manhã para evitar que percam o seu paladar.

Antônio Carlos Alves
Colaborador
Fonte: Diário do Nordeste

SERTÃO DOS INHAMUNS -Tecnologia garante produção

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Independência Na localidade de Brilhante, a 9Km da sede deste Município, existem quatro cisternas calçadão. Construídas há quase dois anos, como projeto piloto de uma parceria entre o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) e o Instituto Elo Amigo, a iniciativa comprova a eficiência desta tecnologia de convivência com o semiárido.

Torna possível, com o armazenamento de água proveniente da chuva no período de inverno a produção de frutas, legumes e criação de pequenos animais durante todo o verão, tanto para o consumo das famílias como para gerar renda com a venda do excedente.

"É um sonho por uma época dessa não termos a preocupação com a falta de água, não termos que ir buscar água longe ou correr o risco de não ter onde ir buscar. Temos água em casa, aqui no nosso quintal", comemora Celma Pereira. Para além de possuir a água como um bem necessário ao dia a dia, para beber, banho, cozinhar e outras utilidades do cotidiano de uma família de cinco pessoas, Celma se anima também com a realidade de transformação de vida conquistada por meio da cisterna calçadão, no que diz respeito à produção. "Plantamos primeiro para o nosso consumo, depois vendemos o que sobra".

Depois da construção da cisterna, dá gosto visitar o quintal da casa de Celma e da comadre Isabel Cristina, vizinhas que dividem os benefícios e trabalho advindos da cisterna e canteiros. Está tudo no início, mas a família já se serve da produção de verduras e frutas. "Nesse período o cuidado tem sido dobrado e a produção diminui", afirma Celma. O sol castiga muito a plantação, é tempo da seca. O tomate é o mais prejudicado. O que tem colhido dos canteiros é a cebolinha, coentro e algumas frutas para consumo da família. Diz que vai cuidando e mantendo, enquanto o inverno chega. Quando a produção é boa, vende para a própria comunidade e até manda para vender na sede.

Maracujá, goiaba, abacate, acerola, seriguela, manga, macaxeira, banana, coco, mamão. Tem um pouco de tudo no quintal da Celma. Tudo muito bem cuidado e aguado com o que ainda resta dos 53 mil litros da cisterna calçadão, que ficou cheia com o inverno deste ano. A água é bem aproveitada de todas as formas pela família. Além da produção de frutas e hortaliças, beneficia na criação de animais domésticos. Ela cria galinhas e suínos. Diz que com a chegada da cisterna de produção tudo mudou na vida da família, a partir da alimentação. "Aproveitamos a água de todo jeito em nosso benefício e hoje temos uma alimentação com muita qualidade. Além do feijão e outras misturas trazidas da cidade, temos muitas frutas, legumes, ovos e boa carne. Tudo isso é uma bênção", reflete a agricultora.

Com a cisterna, Celma teve a oportunidade de participar de cursos e conhecer outras formas de plantio para aproveitar a água acumulada na cisterna. Por meio do projeto de implantação viajou, inclusive, para outras cidades que tinham experiências de sucesso em plantios dessa natureza. E decidiu, junto com a vizinha, implantar os canteiros econômicos, nos quais a semente é adubada na terra que depois é coberta com lona, esterco e uma camada de telha, tudo intercalado por canos furados. Fizeram quatro canteiros.

A experiência, viagens, cursos e a prática nos canteiros lhe deram uma nova visão em relação à vida e de como lidar com o seu sistema de produção. Agora, de forma mais sustentável.

Silvania Claudino
Repórter
Fonte: Diário do Nordeste

Cisternas provam eficácia da convivência com o semiárido

No passado, o segundo semestre do ano era de sofrimento com a escassez de água. Hoje, a realidade mudou

Cariús Duas organizações não governamentais, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em Senador Pompeu, e o Instituto Elo Amigo, em Iguatu, integram o esforço da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), para promover o acesso à água e à segurança alimentar a dezenas de famílias de agricultores no sertão cearense.

A construção de cisternas de placas e de calçadão, cujos recursos são oriundos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), tem se mostrado um meio eficaz de acesso à água para consumo e produção de alimentos.

Até agora, já foram construídas 39.275 cisternas de placas, com a programação de mais 22.500 para o próximo ano, segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Estado (SDA). Há um projeto piloto para a construção de 1.500 cisternas de calçadão, que já foram conveniadas e estão em fase de execução.

Em meio a denúncias de má aplicação de recursos do MDS por algumas Prefeituras no Interior do Ceará para a construção de cisternas de placas (obras inacabadas ou com rachaduras), o esforço de organizações de sociedade civil tem apresentado bons resultados.

As famílias são capacitadas sobre o uso correto das unidades no período de estiagem. Os exemplos, segundo o coordenador da ONG Instituto Elo Amigo, Marcos Jacinto, estão espalhados em diversas comunidades rurais nos Municípios de Cariús, Crato, Jardim, Saboeiro, Piquet Carneiro, Independência, Tauá e Crateús.

Seleção

As instituições que fazem as políticas públicas do Governo Federal chegar à casa dos agricultores integram a articulação do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido. Uma comissão municipal faz a seleção das famílias, que passam por formação técnica, para serem beneficiadas com as obras.

Há dois tipos de cisternas: a de placa, com capacidade para armazenar 16 mil litros de água de chuva captados por calha no telhado, do Programa por Um milhão de Cisternas (P1MC), que começou em 2003; e a cisterna calçadão, do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), que armazena até 52 mil litros de água para uso em irrigação de hortaliças e pomares no quintal das casas.

Para entender a sigla P1+2, Marcos Jacinto, esclarece: "O um significa terra para produção. O numeral dois corresponde a dois tipos de água - a potável, para consumo humano, (armazenada em cisternas de placas), e água para produção de alimentos (armazenada no modelo calçadão)".

As famílias atendidas pelo Programa P1+2 são selecionadas a partir de critérios sociais e econômicos, com prioridade para as casas que já dispõem de cisterna de placa, mulheres na qualidade de chefe de família, presença de crianças de até 6 anos, idosos acima de 65 anos e pessoas portadores de necessidades especiais.

De acordo com a ASA, o objetivo do programa é fomentar a construção de processos participativos de desenvolvimento rural no semiárido brasileiro e promover a soberania, a segurança alimentar e nutricional e a geração de emprego e renda às famílias agricultoras, por meio do acesso e manejo sustentáveis da terra e da água para produção de alimentos.

Na localidade de Riacho do Meio, zona rural de Cariús, quase todas as 54 famílias moradoras do lugar foram atendidas com cisternas de placas e nove do tipo calçadão. Antonieuda Carvalho é uma das beneficiadas e disse que a obra trouxe grande benefício. "Antes, a gente andava com balde na cabeça, indo pegar água distante, no riacho", contou. "Na época do verão, da seca, os poços secavam e água ficava ruim".

Hoje, além da água para o consumo, a família dispõe de verdura e algumas frutas, mesmo no período de verão. "Até abacaxi a gente está plantando", mostrou. "O excesso de produção da verdura a gente dá para os vizinhos". O marido dela é pedreiro e, atualmente, trabalha na construção de outras cisternas em Cariús.

As famílias dão como contrapartida a escavação do terreno, a alimentação dos operários e ajudam no trabalho de construção da unidade. Irani Vieira de Lima, outra beneficiada com a cisterna calçadão, disse que a obra trouxe uma vida nova. "Com certeza, melhorou a nossa qualidade de vida", frisou. "Os frutos que nós produzimos é de forma orgânica, sem veneno". A água acumulada ajuda outra atividade da família: a criação de vacas leiteiras.

O agricultor Emídio Lima, ao lado da esposa, Francisca Lima, mostra-se satisfeito com as duas cisternas. "Foi uma bênção", disse. Inicialmente, o produtor não queria o benefício, por estar idoso, mas hoje agradece. "Já sofri muito indo pegar água no riacho, em poços, mas agora tenho aqui do lado da minha casa".

Na comunidade de Riacho do Meio, a 37Km de Cariús, não se vê mais uma pessoa com lata d´água na cabeça. "A nossa meta é atender outras famílias com cisterna calçadão. Primeiro nós temos a preocupação de capacitar os beneficiários para que usem corretamente as unidades", frisou o técnico do Elo Amigo, Ednaldo do Carmo. A ideia é evitar o uso inadequado ou mesmo a não utilização das cisternas, deixando de captar água no período invernoso. Neste ano, o Elo Amigo em parceria com outras instituições já construiu 77 cisternas de placas, quatro barragens subterrâneas e três tanques comunitários.

Honório Barbosa
Repórter
Fonte: Diário do Nordeste

Aprovado desmonte do Código Florestal em comissão do Senado

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

EM CLIMA DE TRUCULÊNCIA
COMISSÃO APROVA DESMONTE DO CÓDIGO FLORESTAL

Numa tumultuada sessão, as comissões de agricultura e de ciência e tecnologia aprovaram o texto base do senador Luiz Henrique (PMDB/SC) para o novo Código Florestal.
Na avaliação dos integrantes do Comitê Brasil em Defesa das Florestas o projeto aprovado, mesmo com as eventuais modificações que poderão ocorrer, não resolve os principais problemas do texto aprovado na Câmara dos Deputados.
Continua a abertura para anistiar todos os desmatamentos ilegais feitos até três anos atrás, a falta de regras diferenciadas para os pequenos agricultores, a ausência de regras claras para evitar novos desmatamentos em beiras de rio e nascentes, pastagens em encostas, dentre vários outros que haviam sido elencados pelo comitê. E, dependendo das emendas que serão aprovadas, pode piorar ainda mais.
A truculência da polícia do senado, que violentamente acabou com a manifestação pacífica de estudantes contrários à aprovação do projeto, foi outra marca do triste episódio desta tarde. Os membros do comitê manifestam seu repúdio à violência praticada contra os manifestantes e exigem apuração e punição dos responsáveis.
O Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável conclama a sociedade brasileira a, mantido o texto atual, iniciar uma ampla campanha pelo veto da Presidenta da República, Dilma Rousseff para evitar um dos maiores retrocessos na legislação ambiental brasileira em toda sua história.
Brasília – DF, 08 de novembro de 2011


Comitê Brasil
em Defesa das Florestas
e do Desenvolvimento Sustentável


O Comitê em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável é coordenado por: ABONG; CNBB; Coalizão SOS Floresta (Amigos da Terra - Amazônia; APREMAVI; FLORESPI; Fundação O Boticário; Greenpeace; ICV; IMAFLORA; IPAM; ISA; SOS Mata Atlântica; WWF Brasil; Sociedade Chauá; SPVS); Comissão Brasileira Justiça e Paz – CBJP; CNS; Comitê Inter-Tribal; CONIC; CUT; FETRAF; FNRU; FASE; FBOMS; FETRAF; Fórum de Mudança Climática e Justiça Social; Fórum ex-Ministros Meio Ambiente; GTA; IDS; INESC; Instituto Ethos; Jubileu SUL; OAB; Rede Cerrado; Rede Mata Atlântica; REJUMA; Via Campesina (ABEEF, CIMI, CPT, FEAB, MAB, MMC, MST, MPA, MPP e PJR). Secretaria Operativa: CBJP a/c CNBB Fone: (061) 2103-8328 Setor Embaixadas Sul Quadra 801 Conjunto B - Cep: 70.200-014 - Brasília – DF E-mail: comiteflorestas@gmail.com

A divisão do estado do pará – para que e para quem?

Amazônia, novembro de 2011.

Tratar do tema sobre a divisão do estado, nos remete a aprofundar o debate sobre o modelo de sociedade que vivemos, a sociedade capitalista. Esse modelo de sociedade tem na sua essência a lógica no funcionamento a partir da exploração da força de trabalho, da apropriação dos recursos naturais, da mercantilização de toda e qualquer forma de produto, visando basicamente o lucro para poucos, em detrimento da miséria da maioria. Qualquer alteração nesse modelo, a partir de quem comanda esse projeto, será no intuito único e exclusivo de garantir maior acumulação e controle privado dos meios de produção. Isso pode ser constatado na essência da conjuntura de todos os ciclos desse modelo, que se tornou hegemônico a nível mundial, na chamada economia globalizada.
            Este modelo de desenvolvimento criou as bases para a exploração de toda e qualquer matéria-prima e a exploração da mão-de-obra. Com a implantação das culturas, a terra e o trabalho também passam a ter dono/proprietário. De um lado surgem os grandes latifúndios, a partir da entrega das sesmarias aos senhores; de outro lado, a intensificação do uso da mão-de-obra escrava, impossibilitando o acesso dos trabalhadores às terras. Portanto, o modelo agro-exportador, com uma economia voltada para atender as demandas dos países desenvolvidos, serviu de base para a conquista de novas terras, a formação do latifúndio, o trabalho escravo e a acumulação privada do capital, bem como dos recursos naturais com o uso intensivo das terras, extrativismo mineral e degradação ambiental. A economia brasileira, nos primeiros quatro séculos, esteve predominantemente voltada ao atendimento da demanda externa, sem que houvesse preocupação efetiva em orientar a produção para a satisfação das necessidades essenciais da população do país. Em suma, uma economia primária, voltada para fora e comandada de fora, ao sabor dos interesses do latifúndio e do comércio exportador e importador, cuja aliança domina a sociedade submissa e imponente.
            Com o avanço das forças produtivas e o surgimento de uma elite industrial, um novo ciclo de expansão do grande capital se fortalece a nível mundial, com os países do chamado grupo de primeiro mundo comandando esse processo, e lançando suas bases para os paises que não se encontram nesse grupo. Esse processo de industrialização da economia lança uma imensa massa de camponeses para as fábricas, coloca o campo a serviço da indústria e acima de tudo, industrializa o campo. No caso do Brasil, centros industriais são erguidos e as demais regiões são colocadas sob seu interesse, para fornecer a matéria prima para a indústria. O modelo de desenvolvimento se diferencia de região para a região, umas com a tarefa de produtoras e fornecedoras de matéria prima, outras com uma maior capacidade industrial.
            Além disso, esse mesmo Estado garante a grupos industriais, bancos, ruralistas, o controle e domínio da terra, da água, minérios, dos recursos naturais, seja nesses territórios industrializados, como também nas demais regiões marginais e esse processo. No último período, nota-se uma intensa mercantilização das coisas, das pessoas e de tudo que pode gerar lucro. Não existem mais recursos naturais, a serviço das demandas do povo, mas sim, mercadorias que entram na engrenagem capitalista. A terra, água, energia, florestas, animais, a cultura, a identidade, o ar, tudo, mas tudo mesmo, é visto sob a ótica econômica, ou seja, quanto se pode ganhar com isso. Grandes grupos econômicos, de esfera nacional e internacional acumulam, lucram, dominam e garantem a hegemonia desse modelo capitalista, avançando cada vez mais sobre territórios com riquezas ainda a serem exploradas. Para isso, não respeitam nada e ninguém, utilizam esse Estado Burguês para garantir a acumulação privada, e sobre tudo, modificam de forma violenta a concepção de vida, desenvolvimento humano, ambiental, cultural. Ressignificam conceitos para legitimar esse processo de acumulação e lucro.

A Amazônia nesse contexto
Esse modelo hegemônico lança seus tentáculos para os diversos territórios existentes. A Amazônia sempre foi e continua sendo na visão do capital, uma imensa região com fartos recursos naturais (água, terras, minérios, biodiversidade, madeira...) que são uma reserva de grandes investimentos. Todas as políticas pensadas para a região vem de fora, mas comandadas/gerenciadas por elites agrárias, bancos, indústrias, que estão enraizados aqui ou não. Outra vez, o Estado garante todo esse processo. Esses grandes grupos, ora brigam entre si, ora se aliam para garantir seus negócios. Buscam o controle do parlamento, do executivo, do judiciário, a mando de seus interesses. Ou seja, a divisão do território já foi realizado pelo capital nessa região, e escolheram uma classe governante que em sua maioria controla e garante esse modelo de desenvolvimento para a região. Quem se atravessa nesse processo é ameaçado, criminalizado e até mesmo exterminado.
Essa visão da Amazônia como uma grande fonte de recursos naturais pode ser entendida sob a visão internacional, assim como, na perspectiva da visão nacional. Ambos tem uma visão de que essa região é um grande quintal, que deve servir aos seus interesses, onde se pode saquear, destruir, matar, a mando de um desenvolvimento da região, que não existe de fato. Citam inclusive que é uma terra de ninguém, sem povo e atrasado.
            Nessa atual conjuntura, 5 grandes frentes de expansão do capital se encontram enraizadas na região: o desmatamento somado a indústria do carvão, o agronegócio junto com a pecuária, a mineração, a energia hídrica e os agrocombustíveis e da biopirataria. Nessas frentes se encontram desde os latifúndios mais atrasados, que só na região norte detém 16.452 grandes propriedades improdutivas, totalizando mais de 116 milhões de terras improdutivas, até setores altamente industrializados e competitivos, principalmente nas áreas de energia e mineração. Podemos também notar a incorporação de terras principalmente nas mãos de bancos, como é o caso na região do Carajás, onde o banqueiro Daniel Dantas detém milhares de hectares de terras e reservas minerais. Segundo as informações de um funcionário da Superintendência do Incra de Marabá, a região onde se projeta a futura capital do estado do Carajás, localizada entre os municípios de Eldorado dos Carajás, Xinguara, Sapucaia e Rio Maria, as terras estão nas mãos do grupo Santa Bárbara, de Daniel Dantas. Com informações privilegiadas garantiu a posse dessas terras. A especulação que vai se dar em torno dessas e a valorização das mesmas se concretizar esse processo, vai garantir milhares e milhares de reais a mais nos bolsos desse grupo. São essas frentes que ditam, controlam e comandam a lógica de funcionamento dessa região. Atuam para dentro dos governos, comandam a grande mídia, e assumem historicamente o papel de propulsores dessa economia, sob a lógica anteriormente tratada.
            E como não falar das mudanças atuais propostas no código florestal brasileiro, pressionando para intensificar a legalidade do corte de madeira inclusive na Amazônia. Novos projetos de lei que garantem a concessão expressa das licenças ambientais de grandes projetos em todas as áreas, a exploração de minérios em terras indígenas, a alteração do regime da administração das áreas de preservação e a construção de hidrelétricas associadas a construção de grandes eclusas para a efetivação das hidrovias. São mais de 212 bilhões de reais a serem investidos nas áreas de energia, minérios e transportes até 2020 na região Amazônica. Todos esses projetos de alterações das leis estão previstas para essa lógica de desenvolvimento a partir da visão de fora, na perspectiva do grande capital. E o Estado mais uma vez, planeja, financia, normatiza e em alguns casos constrói esses projetos. Os governos tem servido como uma correia de transmissão a serviço dessa lógica desenvolvimentista.
            E o povo nesse contexto, o que tem feito? A primeira impressão que dá é que nada foi feito para impedir essa lógica de usurpação desse território. Uma coisa é certa, o processo de degradação humana, empobrecimento, perca da cultura, do território, mutilou sonhos, matou pessoas, expulsou trabalhadores e trabalhadoras para a periferia de cidades que padecem de uma infra-estrutura adequada. Em poucos anos, o capital conseguiu transformar palavras como o desenvolvimento, sustentabilidade, progresso, água, terra em palavras com conteúdo unicamente voltadas para o lucro. Essa nova hegemonia de pensamento se torna unânime na sociedade.  Mas outra coisa é certa, muitas lutas de enfrentamento já foram feitas e continuam na conjuntura atual. Não dá para deixar de falar do movimento da Cabanagem, que em 1835 escreveria a história dos mais pobres nessa região. As lutas indígenas, a luta contra Belo Monte, a luta de posseiros, ribeirinhos, dos sem terras e assim por diante, são sinais vivos dessa resistência.

O quem tem por detrás da divisão dos estados.
Primeiro reafirmar o pressuposto de configuração desse modelo tratado anteriormente. Esse aspecto já pressupõe de imediato que esse projeto de divisão do estado do Pará, nesse momento, sendo configurado por essa mesma elite local, nacional e internacional, tende a fortalecer a ideia de que é mais um projeto que não serve para a classe trabalhadora, mas sim, para uma classe que quer se fortalecer e se consolidar na região. Mas vamos avaliando esses aspectos para conseguir fazer uma análise mais profunda.

1- para o grande capital, nos parece que não necessita dessa nova divisão. Uma pelo fato de que eles já conseguem controlar as estruturas do Estado, dos governos, setores do poder judiciário, grande parte do parlamento, meios de comunicação de massa. Já possuem uma garantia de continuar explorando a região, os recursos naturais, com verbas e incentivos públicos. Na avaliação, não vão se inserir de cara nesse processo, para não criar um mal estar com os setores que não querem a divisão, bem como, nesse último período o Estado tem bancado os grandes grupos econômicos com incentivos financeiros, para superar a crise. Tirar dinheiro do Estado nesse momento para bancar toda essa nova estrutura significa ficar com menos recursos para continuar bancando essa lógica.

2- quem está a frente dessa campanha, são setores de partidos políticos, madeireiros, grandes comerciantes, grileiros, latifundiários, uma burguesia regional parasitária. Usam de discursos inflamados de abandono das regiões, pouca presença do Estado, pretensas diferenciações culturais, de desenvolver e resolver os problemas da região. Na região do Tapajós podemos verificar políticos como Lira Maia, do DEM, como futuro candidato a governador, Maria do Carmo, atual prefeita de Santarém para senadora. Em outros tempos, adversários políticos, hoje, juntos nessa bandeira da divisão do estado. Não é tamanho do estado que define seu grau de desenvolvimento econômico e social, mas sim, o modelo econômico social de desenvolvimento. A bandeira do sim para esse grupo de políticos é importante também para as próximas campanhas, já no ano que vem para prefeito. Nesses novos estados, adotar a linha contrária significa perder votos. Na região metropolitana de Belém, a bandeira do não também garante a governabilidade desses mesmos políticos.
3- Vejamos a tabela abaixo como ficaria a conformação dos novos estados

Estado
área
habitantes
PIB
PIB per capita
Nº de senadores
Deputados federais
Deputados estaduais
Pará
224.631 km²
4.555.000
31,5 milhões
7.135,00
3
12 a 14 (hoje tem 17)
39 (hoje tem 41)
Tapajós
736.732 hm²
1.300.000
6,4 milhões
5.481,00
3
8
24
Carajás
296.620 km²
1.655.000
19,6 milhões
12.508,62
3
8
24


A partir dessa tabela com esses números, algumas análises:
- aumentam o número de senadores e deputados federais para essa nova região, e que vão competir em número com outras regiões do país que tem mais poder de mando do que essa região. Não é portanto uma briga somente a nível de estado. Sem contar que o estado do Pará vai perder vagas;
- Carajás apresenta o maior PIB per capita, mas isso não significa melhores condições de vida. Ela está entre as cidades mais violentas do país. São mais de 600 assassinatos de trabalhadores nos últimos 30 anos. Somente em 2010, foram 18 trabalhadores assassinados no campo. Isso sem contar a violência urbana.
- Tapajós ficaria com a maior parte de seu território entre áreas de preservação e áreas indígenas. Alguns políticos afirmam que viabilizariam o Estado com o turismo. Mas se a tendência apresentada anteriormente, onde o capital se movimenta para as mudanças no código florestal brasileiro, a liberação expressa das licenças ambientais, alteração do regime de administração das áreas de preservação, exploração de minérios em áreas indígenas, construção de barragens e eclusas para as hidrovias, prova que não vai ser o turismo que vai alavancar a economia do estado de Tapajós, mas sim a frente de expansão da madeira e o agronegócio. Ou melhor, esse projeto já vem sendo implementado. Nesse cenário, ganham força a construção do complexo de barragens no rio Xingú, e o complexo de hidrelétricas no rio Tapajós. Já existem estudos que mostram a logística de escoamento da produção de soja e outros produtos desde o Mato Grosso, via bacia do Rio Tapajós, com menores custos e maior competitividade. Segundo a ANEC (Associação nacional dos exportadores de cereais), tem-se um custo de transporte no Brasil de U$$ 85,00 e EUA e Argentina possuem um custo de transporte de U$$ 20,00 e U$$ 23,00 respectivamente. Com essa nova logística sendo pensada com as hidrovias, esse custo de transporte na região vai se igualar ao dos EUA e Argentina.
- segundo estudos do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o estado do Tapajós gastaria por ano, 2,2 bilhões de reais em custos de manutenção dessa estrutura, 51% do PIB. O estado do Carajás teria um custo anual de 2,9 bilhões de reais, 23% do seu PIB. Levando em consideração a média nacional que é de 12,72%, esses estados dependeriam de recursos federais para poder sobreviver. Esses dois estados teriam um déficit anual de 2,16 bilhões de reais.
- do ponto de vista de número de eleitores, a região metropolitana tem a maioria. Até que ponto esse dado pode influenciar na decisão, quando há um debate rebaixado na sociedade, tanto em favor do sim, como também do não.

4- mas há diferenças históricas entre os dois projetos de Carajás e Tapajós. O primeiro é capitaneado por uma elite econômica nova e poderosa, que quer gerir os recursos minerais e a forte agropecuária da região. A segunda tem maior legitimidade, pois nasceu há 150 anos, mas carece de maior poderio econômico. Contra ambos estão empresários e políticos da região metropolitana de Belém, que não aceitam perder 86% da área e 44% do PIB.

5- Há um rebaixamento do debate na sociedade. De um lado há números sendo apresentados de que se tem mais de 20 milhões para gastar em favor do sim somente na região do Carajás. Somente um empresário do ramo de lojas, teria doado mais de 5 milhões para a campanha do sim. Do outro lado, na campanha do não, estudantes, movimentos sociais e algumas entidades de classe, vivem com poucos recursos e com trabalho voluntário. Os argumentos levantados pelos oportunistas de plantão, de que o problema é que tudo vai para Belém (dá a impressão que o povo da região metropolitana vive bem), que o centro do governo está distante, região abandonada, que a riqueza gerada nas regiões pode mudar a vida do povo não se sustenta. Mas o senso comum na sociedade construída por essa burguesia regional parasitária, é para a divisão do estado. Porém, muitos trabalhadores, calejados de tanta mentira e nada de mudanças, já sabem que é mais uma forma de manter os mesmos ganhando dinheiro às custas do povo.

6- a verdade é que muito pouco ou quase nada vai mudar para a melhoria de vida do povo, por que vivemos num país federalizado onde as políticas são definidas no planalto central, pelos blocos econômicos. Qual vai ser o poder de decisões desses novos estados?

7- E por fim, teriam os novos estados coragem para atacar de fato a raiz do problema, ou a simples cobrança devida de impostos pelo que é saqueado desses territórios pelas grandes empresas, e investirem em políticas públicas para a população? Só a Vale remete mais de 70% de seus lucros para fora do país. Teriam coragem de questionar a Vale? O problema não é ter estados menores, se fosse essa a saída, estados como o Acre, Santa Catarina, a maioria dos estados do nordeste brasileiro, estariam se deliciando da boa condição de vida. Mas não é essa a realidade, vivem em situações semelhantes as que vivemos.

Não a divisão do Estado do Pará e a luta por melhores condições de trabalho, distribuição da renda e da riqueza para os trabalhadores e trabalhadoras, por uma sociedade sem classes, uma nova ordem social e política. 
“A história da humanidade é a história de luta de classes”.

Rogério Paulo Hohn
Militante do MAB

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